Existe uma coisa que os grandes veículos nacionais não conseguem fazer, por mais recursos que tenham: cobrir a reunião da câmara municipal de Lages. Ou o fechamento da única escola de ensino médio de um município de 8 mil habitantes no interior do Mato Grosso. Ou o acordo entre a prefeitura de Pinhais e uma empresa de saneamento que vai triplicar a tarifa de água.

Essas histórias só existem se houver alguém local para contá-las. E cada vez menos há.

Os números

O Brasil perdeu mais de 500 jornais locais nos últimos dez anos, segundo levantamento da Associação Nacional de Jornais. A maioria eram pequenos veículos regionais que dependiam de publicidade local — publicidade que migrou para plataformas digitais que não reinvestem nada nas comunidades onde operam.

O resultado é o que pesquisadores chamam de "desertos de notícias": municípios e regiões inteiras sem cobertura jornalística local. Segundo mapeamento da Agência Pública, 70% dos municípios brasileiros não têm nenhum veículo de comunicação local.

Por que isso importa

Há evidências de que a ausência de jornalismo local tem efeitos concretos na qualidade da democracia. Pesquisas nos Estados Unidos mostram que municípios sem jornal local têm mais corrupção, menor participação eleitoral e piores indicadores de gestão pública.

A lógica é simples: quando ninguém cobre a câmara municipal, os vereadores podem fazer o que quiserem. Quando ninguém investiga a prefeitura, os contratos são assinados sem escrutínio. A accountability democrática depende de informação — e a informação depende de jornalistas.

Não tenho uma solução para oferecer. Tenho apenas a convicção de que o problema é mais sério do que parece, e que merece mais atenção do que recebe.