Existe um momento específico em que você percebe que uma cidade mudou de forma irreversível. Para mim, foi quando tentei marcar uma consulta no posto de saúde do meu bairro e descobri que a fila de espera era de quatro meses.
Florianópolis cresceu 40% nos últimos dez anos. A população passou de 450 mil para mais de 630 mil habitantes. A cidade virou destino de nômades digitais, aposentados paulistas e gaúchos, e de uma classe média que descobriu que podia trabalhar remotamente de qualquer lugar — e escolheu o litoral catarinense.
O que o crescimento trouxe
Há coisas genuinamente boas nesse crescimento. A economia diversificou. A cena cultural ficou mais rica. Novos restaurantes, livrarias, espaços culturais. A cidade ficou mais cosmopolita, no sentido mais literal da palavra.
Mas o crescimento também trouxe o que sempre traz: especulação imobiliária, gentrificação, pressão sobre a infraestrutura. O preço médio do metro quadrado em Florianópolis cresceu 85% nos últimos cinco anos — o maior aumento entre as capitais brasileiras.
Quem está saindo
Os pescadores artesanais da Lagoa da Conceição, que viviam ali há gerações, estão sendo empurrados para o continente. Os funcionários públicos de nível médio que compraram apartamentos nos anos 2000 estão vendendo e se mudando para São José ou Palhoça, onde o custo de vida ainda é suportável.
Uma pesquisa da UFSC publicada em março mostrou que 34% dos moradores de renda média-baixa que deixaram Florianópolis nos últimos três anos citaram o custo de moradia como principal motivo. Não foram expulsos por decreto — foram expulsos pelo mercado.
A questão do planejamento
O Plano Diretor de Florianópolis, aprovado em 2014, foi desenhado para uma cidade diferente. As revisões parciais feitas desde então foram insuficientes para lidar com a velocidade e a escala do crescimento.
A prefeitura anunciou uma revisão completa para 2027. Mas revisões de plano diretor são processos lentos e politicamente intensos — e a cidade não tem tempo de sobra.